17/12/2017

Xadrez da grande bacanal pós-impeachment, por Luís Nassif

Esta semana dei uma palestra no encontro da ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior). No encontro, a mesma dúvida: qual o prazo de validade do modelo econômico e social que está sendo implementado com a tomada do poder pela organização criminosa liderada por Eduardo Cunha?
Ouso dizer que é curto.
Acompanhe o raciocínio.
Peça 1 - a legitimação de Collor e FHC
Fernando Collor ganhou a presidência por mérito próprio, por ter entendido, antes dos demais candidatos, os novos ventos que surgiam.
No plano interno, a enorme ojeriza à centralização brasiliense, remanescente do regime militar; e a desconfiança em relação aos quadros políticos que se apossaram do poder, no governo José Sarney.
No plano internacional, estava em pleno vapor a onda liberal inaugurada por Margareth Thatcher e Ronald Reagan.
Em todos os períodos da historia, os movimentos políticos internacionalistas sempre necessitaram do endosso das grandes ondas globais. Foi assim no fim da Monarquia até a Primeira Guerra. E no período pós ditadura, com as eras Collor e FHC.
A onda anti-centralização, anti-mordomia, anti-Brasília, junto com o discurso thatcheriano era tão forte que permitiu a Collor cometer enormes erros, desmanchar políticas públicas bem-sucedidas, montar maracutaias com a privatização, mediante o uso das moedas podres. Mas trazer ganhos na abertura da economia.
Já a legitimação de Fernando Henrique Cardoso decorreu exclusivamente do Plano Real. Qualquer crítica a política implementadas era respondida com a mesma frase padrão: você quer a volta da inflação?
Esse jogo permitiu que os erros de FHC, especialmente com o câmbio, levassem o país à bancarrota logo após as eleições de 1998. Com o apoio decisivo da mídia, saliente-se.
Assim, a legitimação durou um mandato. O segundo foi um governo fantasma.
Ou seja, duas experiências internacionalistas, uma que não durou um mandato sequer, outra que durou apenas um mandato, mesmo tendo o enorme handicap do fim da inflação.
Peça 2 - os fatores de (des)legitimação de Temer
O primeiro  fator de deslegitimação é o mais óbvio: Temer é o segundo homem na hierarquia de uma organização criminosa presidida por Eduardo Cunha. Ponto. Seria o mesmo que pretender modernização com um Fulgêncio Batista na Cuba pré-Fidel, um Rafael Trujillo na República Dominicana, um Noriega, no Panamá.
Pode-se conseguir a modernização com um déspota esclarecido. Com um bandido, nunca.
A razão é simples.
·       Toda organização criminosa quer roubar.
·       Processos de mudança abrem enorme espaço para negócios.
·       Subordinando as mudanças ao roubo, perde-se a perspectiva de qualquer projeto estruturante ou legitimador.
Portanto, cortem essa história de que a disputa é entre dois projetos de país: um suposto projeto petista e um suposto projeto liberal da Ponte para o Futuro. É entre a modernidade e o banditismo, que é inerente ao modelo de implementação das medidas previstas na tal Ponte.
Pretender mudanças no ambiente político atual significa abrir o cofre do banco e dispensar  a segurança. É o que está sendo feito, aliás.
Peça 3 - os templários do liberalismo
O segundo fator é a visão extremamente tecnocrática e amadora dos templários do liberalismo.
Há uma estratégia para a guerra e outra para a vitória. A guerra permite toda sorte de radicalização do pensamento, a criação de utopias, o pretíssimo no branquíssimo, a exploração da figura do inimigo, como acontece com todos os arautos das guerrilhas ideológicas.
Já o exercício do poder exige discernimento e avaliação correta sobre os limites da realidade, conhecimento das engrenagens políticas, sociais  e econômicas de um país complexo, o ritmo de implementação etc.
Por aqui, os liberais lançaram diversos esquadrões armados de slogans e, no poder, não colocaram um maestro com conhecimento da posologia, do ritmo de implementação de mudanças, dos limites, das restrições impostas pela realidade. São os slogans se tornando políticas de Estado.
Desde o Cruzado o país é vítima desses cabeções, que julgam que quanto mais radical, mais virtuosa a política. Só ganham sabedoria depois que são expulsos do poder pelos excessos cometidos.
Em toda essa balbúrdia, nenhum aceno social, nenhuma palavra em direção aos direitos de minorias, nenhuma tentativa de legitimação.
Toda a estratégia é de curtíssimo prazo, de olho exclusivo no mercado e de acordo com a visão dos GPS, 3Gs e o escambau do mercado. Consiste em adquirir um ativo, rentabilizá-lo no curto prazo e passá-lo adiante, ganhando na sua valorização imediata.
Está aí o desastre da Estácio de Sá para comprovar os efeitos do padrão GP de rentabilidade máxima.
Hoje, o ativo é o Brasil.
Peça 4 – a economia em 2018
2018 entrará com o seguinte ritmo:
1. PEC do Teto: não passará do primeiro ano
A menos que se aceite como inócuo o desmantelamento de todos os serviços públicos, a PEC do Teto é inviável. Quando as multidões, abraçadas com prefeitos e governadores, entidades sindicais, associações saírem às ruas exigindo remédios, saúde, educação, segurança, o que o Planalto irá fazer? Colocar na frente do lago o Marcos Lisboa e o Monsueto de Almeida com uma calculadora, para explicar a lógica do plano?  Terá as mesmas explicações que o inacreditável Paulo Hartung no Espírito Santo.
2. Os efeitos da lei trabalhista ficarão claros
Uma legislação que precisaria, de fato, ser modernizada, é empurrada goela abaixo, sem garantia de continuidade. O efeito imediato é esse massacre, do qual o caso Estácio de Sá se tornou o exemplo maior.
3. Vôo de galinha da economia
Não adianta os comentaristas da Globo celebrarem 0,1% de crescimento como se fosse recuperação. É a mesma coisa que comemorar o fato de ter parado de cair a popularidade de Temer, quando chega próxima de zero. Trata-se apenas de um processo cíclico, que sucede às grandes quedas. A economia continuará amarrada aos enormes passivos do período de crise, a uma política fiscal e monetária pró-cíclica (isto é, que acentua o ciclo de recessão) sem nenhuma alavanca capaz de relançá-la.
4. A humilhação do país nas mãos de uma quadrilha
A cada dia que passa, mais vai caindo a ficha geral de que o país está nas mãos de uma quadrilha. E, agora, uma quadrilha avalizada pelo único candidato do continuísmo com alguma possibilidade, Geraldo Alckmin.
Peça 5 - as eleições de 2018
O golpe foi uma aliança dos seguintes setores:
PSDB-mídia + Judiciário + Ministério Público + evangélicos + quadrilha de Temer-Cunha
O amálgama que junta juízes, procuradores e deputados é o moralismo pré-histórico da ultra-direita, seu discurso contra direitos das minorias, contra o casamento homoafetivo e todos os avanços das modernas democracias.
Não é por outro motivo que, na CPI da JBS, celebrou-se o acordo dos governistas, poupando a Lava Jato das denúncias de Tacla Duran.  Foi a constatação óbvia de que a Lava Jato é essencial para a manutenção do continuísmo.
A noite do terror não terá vida longa por várias razões:
A implosão do núcleo do golpe
A construção institucional de um país depende da Constituição e de de um conjunto de leis, de práticas. A institucionalidade impõe limites, não apenas legais, mas de conduta a todos os poderes.
Quando se atravessa o Rubicão, como no caso do impeachment, todo esse edifício rui. Se se pode derrubar uma presidente ao arrepio da Constituição, tudo o mais será permitido. Que o diga o excelso Ministro Luís Roberto Barroso, principal padrinho do estado de exceção e da flexibilização  da Constituição.
E aí vira a suruba portuguesa, com procuradores desmoralizando Ministros do STF pelo Twitter, Ministros do STF sendo desmoralizados sem necessidade de ajuda externa, negociatas à luz do dia, na forma de venda de estatais, venda de projetos de lei, venda de proteção, Judiciário colocando adversários em cana (como no caso do ex-governador Garotinho), Conselho Nacional de Justiça (CNJ) punindo juízes legalistas. E cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha e vivendo intensamente como se não houvesse amanhã, não houvesse feios a essa orgia de poderes individuais.
Quando o golpe é conduzido por um poder central - um ditador ou uma corporação, como foi o caso de 64 -, ele se impõe sobre a balbúrdia geral. Quando o golpe é a balbúrdia, se esgota em suas próprias contradições.
O núcleo do impeachment virou de tal modo uma casa da mãe Joana que o presidente quer continuar, o Ministro da Fazenda quer o lugar do presidente, o maior aliado, PSDB, quer lançar candidato, mas não sabe se fica ou se sai, os jornais multiplicam-se em seminários de pouca relevância e alto patrocínio de estatais e, ao mesmo tempo, fingem que criticam o governo, para não se desmoralizar de vez perante os leitores.
Esse é um quadro sintético do que está acontecendo com os vitoriosos do golpe. Completa-se o quadro com a incapacidade de gerar sequer um candidato competitivo para 2018.
A impossibilidade do Estado de Exceção
Se não podem manter o poder pelo voto, manteriam pelo estado de exceção.
No curto prazo, a Lava Jato e o TRF4 dão conta. No médio, não.
A Constituinte de 1988 mostrou o avanço das organizações civis, invisibilizados pela mídia. De repente, como que do nada, surgiram grupos organizados indígenas, negros, de camponeses, de direitos humanos, de quilombolas etc.
Hoje em dia, com o advento das redes sociais, e com o próprio desenvolvimento nacional com as grandes conferências, os grupos de interesse multiplicaram-se. Há organizações de defesa dos deficientes, da Amazônia, dos LBTGs, das mulheres, da educação, da saúde, da assistência social, da ética nas empresas. Cada estado tem seu coletivo, suas organizações próprias, sem contar o sistema tradicional dos sindicatos e associações.
Hoje em dia, mesmo em setores empoderados pela direita - como Polícia Federal e Ministérios Públicos - existem os coletivos democráticos. Mais: todos os movimentos sociais apostam na democracia, esvaziando a tese do golpe preventivo.
Esses avanços, por sua vez, desenvolveram um mercado de opinião publicada – por tal, entenda-se o público classe média midiática -, menos estridente que os MBLs da vida, mas que gradativamente vai se tomando de enjoo com o discurso da indignação vazia e com os preconceitos da ultradireita.
Como já previsto em outros artigos, cada vez mais o primeiro time da imprensa brasileira tenta vestir o figurino do conservador inglês, conservador na economia, liberal nos costumes e discreto no linguajar.
É um movimento lento, que tende inicialmente a poupar o principal aríete da ultra-direita – os abusos da PF e do MPF no padrão Lava Jato -, mas que é irreversível no sentido de combater os excessos radicais.
Tudo isso demonstra uma musculatura e uma vitalidade que torna impossível qualquer veleidade de ditadura de médio ou longo prazo.
A inviabilidade Eleitoral da Ponte
Por outro lado, a Ponte para o Futuro não resiste a um teste de urna. É inviável eleitoralmente.
Não foi o petismo que deu a vitória a Dilma Rousseff em 2014, mas divisão do país entre o anacrônico e o moderno. A cada dia que passa, mais a face do golpe se confunde com as práticas mais anacrônicas.
Ontem, foi a vez do Congresso trazer de volta os manicômios. E há razões para isso. Em outros tempos, os manicômios eram fonte de enriquecimento de diversos coronéis políticos, como o ex-deputado Inocêncio de Oliveira. Sempre foram uma fonte inesgotável para sugar recursos do INSS.
Peça 6 – o fruto da árvore proibida
Com o início da era FHC, o PSDB abriu mão definitivamente das teses modernizantes. Tornou-se um partido rancoroso, sem identificação maior com os avanços sociais e morais. E negociando cada vez mais com lobbies externos, das incursões pioneiras de Pedro Malan no Banco Mundial, e de José Serra com a Nordisk, no episódio rumoroso de licitação de insulina, quando era Ministro da Saúde aos jogos atuais com a lei do petróleo.
Com todos seus defeitos, com todos os erros cometidos, com a falta de visão de Nação, com os erros econômicos da era Dilma, com a leniência da era Lula com mercado e mídia, o PT continua sendo o desaguadouro dos movimentos modernizadores apartidários.
Se num passe da mágica, a Lava Jato, com Temer, PSDB, Gilmar, mídia e a rapa conseguissem eliminar o partido, ainda assim toda essa frente social se manteria unida em torno do partido ou candidato que exprimisse esses valores.
Tudo isso porque deixaram o país provar o fruto da árvore proibida.
Durante algum tempo, o Brasil aprendeu que é possível erradicar a pobreza com políticas bem concebidas, que a redução da pobreza aumenta o mercado interno, produzindo um circulo virtuoso. Aprendeu que é possível desenvolver uma indústria da saúde, avançar na educação, participar dos jogos diplomáticos internacionais, criar uma indústria de defesa, remontar a indústria naval.
Podem destruir enquanto tem tempo.
Mas no fundo da memória nacional já foi plantada a palavra de ordem: nós podemos!
(OBs: Na peça 2 acima, o negrito e a fonte itálica foram por mim alteradas)

01/07/2017

O plano Temer-Gilmar para anular a delação da JBS - Portal Vermelho

O plano Temer-Gilmar para anular a delação da JBS - Portal Vermelho: Na luta para escapar da acusação de corrupto e de uma futura condenação à prisão, Michel Temer quer anular a delação do empresário Joesley Batista. Um de seus planos já está na praça pela voz do amigo Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). E precisa da participação decisiva da pessoa que acaba de escolher como sua investigadora, Raquel Dodge, a qual usou o “homem da mala” como ponte com o Palácio do Planalto.

O plano Temer-Gilmar para anular a delação da JBS - Portal Vermelho

O plano Temer-Gilmar para anular a delação da JBS - Portal Vermelho: Na luta para escapar da acusação de corrupto e de uma futura condenação à prisão, Michel Temer quer anular a delação do empresário Joesley Batista. Um de seus planos já está na praça pela voz do amigo Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). E precisa da participação decisiva da pessoa que acaba de escolher como sua investigadora, Raquel Dodge, a qual usou o “homem da mala” como ponte com o Palácio do Planalto.

07/03/2016

Tolerância e Diversidade por Tassia Regino

Nossa colaboradora Tassia Regino , nos envia esse e-mail comentando sobre a Tolerância e Diversidade, em um momento conturbado que passamos.

Polêmicas com um texto da Fernanda Torres na semana passada, os episódios da política nesta semana, a virulência na internet, se somam num contexto em que é evidente que o mundo e o Brasil vivem um momento em que cada vez a tolerância e a capacidade de conviver com a diferença são necessárias.

Por isso, hoje o meu email de Boa Semana se utiliza de texto e vídeo de algumas pessoas que escrevem, falam e cantam a diversidade e a tolerância prá compartilhar com este meu grupo de amigos e pessoas queridas, que é tão diverso, a minha preocupação e a renovação da minha disposição de ser cada vez mais uma militante da tolerância ativa e do respeito às diferenças e da valorização diversidade.

A inspiração positiva para tratar deste assunto veio inicialmente de um vídeo muito legal que recebi esta semana de um amigo, em que o Leandro Karnal, fala do conceito Tolerância Ativa. Segundo o Dicionário Houaiss, tolerância é a “tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas”. A tolerância ativa vai além disso e na definição do Karnal significa que se compreenda que a diversidade é fundamental. No vídeo ele reflete que a não aceitação das diferenças faz do mundo um lugar horrível” e lembra a frase falsamente atribuída a Voltaire, que tem tudo a ver com o momento que passamos:"Eu discordo totalmente do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo".

E falando do assunto tolerância e diversidade, claro que eu não podia deixar de lado a música linda que o meu conterrâneo Lenine fez, celebrando a diversidade, que já começa lembrando que "foi pra diferenciar Que Deus criou a diferença".

Eu já tinha decidido fazer este email, mas ele foi reforçado por uma Peça maravilhosa que está em cartaz aqui em São Paulo e fomos ver ontem. A peça é “O Topo da Montanha”, com Lázaro Ramos e Taís Araújo e nela o último dia de vida do ativista Martin Luther King, que morreu assassinado lutando pelos direitos civis dos negros, é reinventado de um jeito muito criativo, e apesar de denso, a peça termina sendo também divertida.Vendo a peça e o que a intolerância já fez no passado, meu assunto se reforçou. E ouvindo Luther King também: “aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”.

Então prá celebrar a diversidade e a tolerância, trago de início uma definição da UNESCO sobre Tolerância, que gosto muito; depois a letra do Lenine e o link dele cantando a Diversidade; e, por fim, o inspirador vídeo do Leandro Karnal. Procurei muito um texto do Karnal com o mesmo conteúdo, mas não encontrei. Então, abaixo do link para o vídeo, reproduzo um texto de um Portal que fez uma compilação da fala do Karnal (mas sem o mesmo brilhantismo do vídeo)

Espero que gostem, e que o apanhado inspire uma semana com a celebração desta vida, que, como diz Lenine é repleta e que tem “o toque de Deus, a vela no breu e a chama da diferença”

Um Abraço e boa semana

Tássia

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TEXTO DA UNESCO (A ONU institui o dia 16 de Novembro como O Dia Internacional para a Tolerância )

A tolerância, nem concessão nem indulgência, se fundamenta no respeito e na apreciação da riqueza e da diversidade das nossas culturas, dos nossos modos de expressão e das nossas maneiras de exprimir a condição humana”.
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DIVERSIDADE

Lenine



Se foi pra diferenciar
Que Deus criou a diferença

Que irá nos aproximar
Intuir o que Ele pensa
Se cada ser é só um
E cada um com sua crença
Tudo é raro, nada é comum
Diversidade é a sentença



Que seria do adeus
Sem o retorno
Que seria do nu
Sem o adorno
Que seria do sim
Sem o talvez e o não
Que seria de mim
Sem a compreensão



(...)
A humanidade caminha
Atropelando os sinais
A história vai repetindo
Os erros que o homem traz
O mundo segue girando
Carente de amor e paz
Se cada cabeça é um mundo
Cada um é muito mais

Que seria do caos
Sem a paz
Que seria da dor
Sem o que lhe apraz
Que seria do não
Sem o talvez e o sim
Que seria de mim...
O que seria de nós

Que a vida é repleta
E o olhar do poeta
Percebe na sua presença
O toque de Deus
A vela no breu
A chama da diferença

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24/01/2016

23/01/2016

Boatos

Confissões de um viciado em espalhar boatos, por Leonardo Sakamoto

Enviado por anarquista sério
Do blog do Sakamoto
Leonardo Sakamoto
Como eu comecei? Ah, sei lá, como todo mundo começa, né?
Um dia um amigo me apresentou o WhatsApp e mostrou como era legal ficar conectado e receber coisas engraçadas. Disse para eu experimentar.
No começo, falei que não, tinha medo daquilo. Mas quando vi que tava todo mundo usando, achei que ia acabar sendo excluído da galera, engoli o medo e passei a usar também.
Logo de cara, recebi um áudio sem fonte. Era um depoimento de um sargento do Exército alertando a população que um golpe estava para acontecer, que era para todo mundo estocar comida e ficar em casa. Me assustei com isso e fui para o supermercado, comprar coisas que não estragavam, como enlatados, salame, frutas secas. Mas o golpe não veio.
O que veio, logo depois, foi um texto dizendo que uma das testemunhas do escândalo de corrupção da Lava Jato havia sido envenenada e morta. A mensagem era bem clara: passe adiante se você ama seu país. E eu passei, afinal, aquilo era um absurdo! Dias depois, vi o mesmo homem rindo na TV, esbanjando saúde.
Ao invés de largar o WhatsApp depois desses episódios, aconteceu o contrário: fiquei viciado nele. Checava o telefone a cada minuto, instalei a versão para desktop, compartilhava tudo o que aparecia. Não prestava mais atenção nas aulas da universidade, pulava as refeições e até meu chefe reclamou que eu estava improdutivo e disperso.
Com o tempo, fui me entregando a coisas mais pesadas. Montei listas e mais listas com centenas de pessoas. Passava o dia postando tudo o que recebia. Gatinhos fofos faziam sucesso, mas os posts políticos iam mais longe. Fotos de filho do Lula com seu Boeing 747-300 banhado a outro? Postava. Fotos do Aécio vestido de panda em uma suruba multiétnica? Postava. Documentos e fotos incriminando qualquer pessoa mesmo sem provas de que eram verídicos? Postava, postava, postava.
A partir de um momento, não me preocupava mais com a realidade. Eu só queria ser lido, só estava feliz com a certeza de que alguém estava me compartilhando. Aquilo foi me consumindo por dentro. Se eu não tivesse memes, áudios, vídeos ou textos bons o suficiente para mandar, inventava histórias por conta própria. Criava boatos, estruturava fofocas, erguia polêmicas.
Então, um dia, fui procurado por um profissional que disse que estava de olho em mim há tempos, que meu trabalho era bom, mas ainda amador e me convidou a aprender e ganhar dinheiro com aquilo. Explicou que fazia parte de um coletivo que prestava “serviços'' para políticos e empresas para descontruir a imagem de outras pessoas. Ele me ofereceu uma montanha de dinheiro mas, para falar a verdade, nem precisaria. Eu teria topado de graça.
Saí do emprego, larguei a faculdade, deixei a casa de meus pais. Quanto mais ódio e raiva continham minhas mensagens, mas elas iam longe.
Difamei muito, injuriei horrores, caluniei sem dó. Eu estava tão absorvido naquilo que não pensava nas pessoas como seres humanos ou em qualquer injustiça que cometia. Sentia uma sensação de poder tão grande, um prazer gigantesco difícil de explicar. Não largava o celular nem para tomar banho, fazer cocô, transar.
Um dia, tive um orgasmo após um boato que eu havia inventado aparecer em uma matéria de jornal como prova do envolvimento de uma pessoa em um escândalo. Ele era inocente daquilo, mas devia ser culpado de algo. Todo mundo é.
Até que um dia, mandando um meme contra um político enquanto dirigia, atropelei uma criança. E fui pra cima do policial que me parou porque ele me fez perder a postagem. Com o golpe, desfaleci e acordei na cadeia. E, pior, desconectado.
Na cela da delegacia, tive uma crise de abstinência sem igual. Suava frio, sentia uma ansiedade louca, uma sensação de que o mundo estava acontecendo sem mim. Os outros presos ficaram com medo, pois eu teclava alucinadamente em um celular inexistente e gritava de satisfação a cada mensagem-fantasma enviada. Foram longas três horas.
Minha mãe chorou na frente do juiz. Disse que a culpa não era minha, mas do meu vício, do WhatsApp e jurou que eu era um bom garoto. Já o promotor não teve dó e mostrou centenas de postagens que eu tinha soltado, relatando como cada uma delas causou dor e sofrimento.
Estufei o peito na hora. Não senti remorso, mas um baita orgulho.
E pensei nas tantas outras postagens que havia feito, responsáveis por criar boatos que rodam até hoje e que ninguém nunca ficaria sabendo. Eles precisavam conhecer o verdadeiro responsável – eu e apenas eu. Interrompi meu advogado de defesa e desandei a falar de todas as minhas obras-primas e como era fácil manipular as pessoas.
Fui declarado mentalmente incapaz e passei seis meses numa clínica para desintoxicação. Percebi que estava no fundo do poço quando ofereci favores sexuais ao enfermeiro por 15 minutos lendo as listas dele.
Agora, estou limpo. WhatsApp, lista de mensagens, nunca mais pra mim.
Até ontem, quando um amigo me apresentou o Snapchat…
Isto é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.



19/12/2015

Os 11 princípios do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels

Os 11 princípios do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels

Qualquer semelhança com as práticas da mídia golpista brasileira é mera coincidência...


Jornal GGN
reprodução
Conhece Joseph Goebbels, o violento ministro de propaganda de Hitler? Estes são os 11 princípios que levaram o povo alemão a tentar exterminar à humanidade:
 
1.- Princípio da simplificação e do inimigo único.
 
Simplifique não diversifique, escolha um inimigo por vez. Ignore o que os outros fazem concentre-se em um até acabar com ele.
 
2.-Princípio do contágio
 
Divulgue a capacidade de contágio que este inimigo tem.  Colocar um antes perfeito e mostrar como o presente e o futuro estão sendo contaminados por este inimigo.
 
3.-Princípio da Transposição
 
Transladar todos os males sociais a este inimigo.
 
4.-Princípio da Exageração e desfiguração
 
Exagerar as más noticias até desfigurá-las transformando um delito em mil delitos criando assim um clima de profunda insegurança e temor. “O que nos acontecerá?”
 
5.-Princípio da Vulgarização
 
Transforma tudo numa coisa torpe e de má índole. As ações do inimigo são vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir.
 
6.-Princípio da Orquestração
 
Fazer ressonar os boatos até se transformarem em notícias sendo estas replicadas pela “imprensa oficial’.
 
7.-Princípio da Renovação
 
Sempre há que bombardear com novas notícias (sobre o inimigo escolhido) para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas.
 
8.-Princípio do Verossímil
 
Discutir a informação com diversas interpretações de especialistas, mas todas em contra do inimigo escolhido. O objetivo deste debate é que o receptor, não perceba que o assunto interpretado não é verdadeiro.
 
9.-Princípio do Silêncio.
 
Ocultar toda a informação que não seja conveniente.
 
10.-Princípio da Transferência
 
Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes
 
11.-Princípio de Unanimidade
 
Busca convergência em assuntos de interesse geral  apoderando-se do sentimento  produzido por estes e colocá-los em contra do inimigo escolhido.
 
Qualquer semelhança com as práticas do PIG é pura coincidência....
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Pinçado da Carta Maior

25/10/2015

Raloim, só se for com carne seca !


Manifesto do Saci 

Um espectro ronda a indústria da cultura. Como já ocorrera durante a I Guerra Mundial – quando os chamados “ povos civilizados” se matavam entre si nos campos da Europa, como lembra Monteiro Lobato em seu Inquérito, escrito em 1917 –, o espectro do Saci voltou para dar nó na crina das potências que invadem os outros países com uma “indústria cultural” predadora e orquestrada.
O Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural a essa invasão. Na figura simpática e travessa do insigne perneta, esbarram hoje, impotentes, os x-men, os pokemon, os raloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru.
É tempo, pois, do Saci expor abertamente seus objetivos, lançando um manifesto e denunciando o verdadeiro espectro: o espectro do imperialismo cultural. Para tanto, outros expoentes do imaginário cultural brasileiro – como o Boitatá, a Iara, o Curupira e o Mapinguari – reuniram-se e redigiram o presente manifesto.
A cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso país. A história de todas as culturas até hoje existentes é a história de opressores e oprimidos. Hoje, como ontem, o Saci apóia, em qualquer lugar e em qualquer tempo, qualquer iniciativa no sentido de contestar a arrogância, a prepotência e a destruição de que é portadora a indústria cultural do império.
O Saci não se reivindica como símbolo único e incontestável da cultura popular brasileira. O Saci trabalha pela união e pelo entendimento das várias iniciativas culturais que devolvam ao nosso povo a valorização de sua identidade cultural. O Saci não dissimula suas opiniões e seus objetivos e proclama, abertamente, que estes só podem ser alcançados por um amplo movimento de resistência cultural, denunciando os malefícios da indústria cultural imperialista. Que ela trema à idéia de uma resistência cultural popular. Nesta, o Saci nada tem a perder a não ser seus grilhões. E tem um mundo a ganhar.
Sacis de todo o Brasil, unamo-nos!
SOSACI



Manifesto Antropófago revisitado

Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência!


Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci.

Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush. 
O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora. 
A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.

São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora



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