07/03/16

Tolerância e Diversidade por Tassia Regino

Nossa colaboradora Tassia Regino , nos envia esse e-mail comentando sobre a Tolerância e Diversidade, em um momento conturbado que passamos.

Polêmicas com um texto da Fernanda Torres na semana passada, os episódios da política nesta semana, a virulência na internet, se somam num contexto em que é evidente que o mundo e o Brasil vivem um momento em que cada vez a tolerância e a capacidade de conviver com a diferença são necessárias.

Por isso, hoje o meu email de Boa Semana se utiliza de texto e vídeo de algumas pessoas que escrevem, falam e cantam a diversidade e a tolerância prá compartilhar com este meu grupo de amigos e pessoas queridas, que é tão diverso, a minha preocupação e a renovação da minha disposição de ser cada vez mais uma militante da tolerância ativa e do respeito às diferenças e da valorização diversidade.

A inspiração positiva para tratar deste assunto veio inicialmente de um vídeo muito legal que recebi esta semana de um amigo, em que o Leandro Karnal, fala do conceito Tolerância Ativa. Segundo o Dicionário Houaiss, tolerância é a “tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas”. A tolerância ativa vai além disso e na definição do Karnal significa que se compreenda que a diversidade é fundamental. No vídeo ele reflete que a não aceitação das diferenças faz do mundo um lugar horrível” e lembra a frase falsamente atribuída a Voltaire, que tem tudo a ver com o momento que passamos:"Eu discordo totalmente do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo".

E falando do assunto tolerância e diversidade, claro que eu não podia deixar de lado a música linda que o meu conterrâneo Lenine fez, celebrando a diversidade, que já começa lembrando que "foi pra diferenciar Que Deus criou a diferença".

Eu já tinha decidido fazer este email, mas ele foi reforçado por uma Peça maravilhosa que está em cartaz aqui em São Paulo e fomos ver ontem. A peça é “O Topo da Montanha”, com Lázaro Ramos e Taís Araújo e nela o último dia de vida do ativista Martin Luther King, que morreu assassinado lutando pelos direitos civis dos negros, é reinventado de um jeito muito criativo, e apesar de denso, a peça termina sendo também divertida.Vendo a peça e o que a intolerância já fez no passado, meu assunto se reforçou. E ouvindo Luther King também: “aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”.

Então prá celebrar a diversidade e a tolerância, trago de início uma definição da UNESCO sobre Tolerância, que gosto muito; depois a letra do Lenine e o link dele cantando a Diversidade; e, por fim, o inspirador vídeo do Leandro Karnal. Procurei muito um texto do Karnal com o mesmo conteúdo, mas não encontrei. Então, abaixo do link para o vídeo, reproduzo um texto de um Portal que fez uma compilação da fala do Karnal (mas sem o mesmo brilhantismo do vídeo)

Espero que gostem, e que o apanhado inspire uma semana com a celebração desta vida, que, como diz Lenine é repleta e que tem “o toque de Deus, a vela no breu e a chama da diferença”

Um Abraço e boa semana

Tássia

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TEXTO DA UNESCO (A ONU institui o dia 16 de Novembro como O Dia Internacional para a Tolerância )

A tolerância, nem concessão nem indulgência, se fundamenta no respeito e na apreciação da riqueza e da diversidade das nossas culturas, dos nossos modos de expressão e das nossas maneiras de exprimir a condição humana”.
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DIVERSIDADE

Lenine


Se foi pra diferenciar
Que Deus criou a diferença
Que irá nos aproximar
Intuir o que Ele pensa
Se cada ser é só um
E cada um com sua crença
Tudo é raro, nada é comum
Diversidade é a sentença

Que seria do adeus
Sem o retorno
Que seria do nu
Sem o adorno
Que seria do sim
Sem o talvez e o não
Que seria de mim
Sem a compreensão

(...)
A humanidade caminha
Atropelando os sinais
A história vai repetindo
Os erros que o homem traz
O mundo segue girando
Carente de amor e paz
Se cada cabeça é um mundo
Cada um é muito mais

Que seria do caos
Sem a paz
Que seria da dor
Sem o que lhe apraz
Que seria do não
Sem o talvez e o sim
Que seria de mim...
O que seria de nós

Que a vida é repleta
E o olhar do poeta
Percebe na sua presença
O toque de Deus
A vela no breu
A chama da diferença

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24/01/16

23/01/16

Boatos

Confissões de um viciado em espalhar boatos, por Leonardo Sakamoto

Enviado por anarquista sério
Do blog do Sakamoto
Leonardo Sakamoto
Como eu comecei? Ah, sei lá, como todo mundo começa, né?
Um dia um amigo me apresentou o WhatsApp e mostrou como era legal ficar conectado e receber coisas engraçadas. Disse para eu experimentar.
No começo, falei que não, tinha medo daquilo. Mas quando vi que tava todo mundo usando, achei que ia acabar sendo excluído da galera, engoli o medo e passei a usar também.
Logo de cara, recebi um áudio sem fonte. Era um depoimento de um sargento do Exército alertando a população que um golpe estava para acontecer, que era para todo mundo estocar comida e ficar em casa. Me assustei com isso e fui para o supermercado, comprar coisas que não estragavam, como enlatados, salame, frutas secas. Mas o golpe não veio.
O que veio, logo depois, foi um texto dizendo que uma das testemunhas do escândalo de corrupção da Lava Jato havia sido envenenada e morta. A mensagem era bem clara: passe adiante se você ama seu país. E eu passei, afinal, aquilo era um absurdo! Dias depois, vi o mesmo homem rindo na TV, esbanjando saúde.
Ao invés de largar o WhatsApp depois desses episódios, aconteceu o contrário: fiquei viciado nele. Checava o telefone a cada minuto, instalei a versão para desktop, compartilhava tudo o que aparecia. Não prestava mais atenção nas aulas da universidade, pulava as refeições e até meu chefe reclamou que eu estava improdutivo e disperso.
Com o tempo, fui me entregando a coisas mais pesadas. Montei listas e mais listas com centenas de pessoas. Passava o dia postando tudo o que recebia. Gatinhos fofos faziam sucesso, mas os posts políticos iam mais longe. Fotos de filho do Lula com seu Boeing 747-300 banhado a outro? Postava. Fotos do Aécio vestido de panda em uma suruba multiétnica? Postava. Documentos e fotos incriminando qualquer pessoa mesmo sem provas de que eram verídicos? Postava, postava, postava.
A partir de um momento, não me preocupava mais com a realidade. Eu só queria ser lido, só estava feliz com a certeza de que alguém estava me compartilhando. Aquilo foi me consumindo por dentro. Se eu não tivesse memes, áudios, vídeos ou textos bons o suficiente para mandar, inventava histórias por conta própria. Criava boatos, estruturava fofocas, erguia polêmicas.
Então, um dia, fui procurado por um profissional que disse que estava de olho em mim há tempos, que meu trabalho era bom, mas ainda amador e me convidou a aprender e ganhar dinheiro com aquilo. Explicou que fazia parte de um coletivo que prestava “serviços'' para políticos e empresas para descontruir a imagem de outras pessoas. Ele me ofereceu uma montanha de dinheiro mas, para falar a verdade, nem precisaria. Eu teria topado de graça.
Saí do emprego, larguei a faculdade, deixei a casa de meus pais. Quanto mais ódio e raiva continham minhas mensagens, mas elas iam longe.
Difamei muito, injuriei horrores, caluniei sem dó. Eu estava tão absorvido naquilo que não pensava nas pessoas como seres humanos ou em qualquer injustiça que cometia. Sentia uma sensação de poder tão grande, um prazer gigantesco difícil de explicar. Não largava o celular nem para tomar banho, fazer cocô, transar.
Um dia, tive um orgasmo após um boato que eu havia inventado aparecer em uma matéria de jornal como prova do envolvimento de uma pessoa em um escândalo. Ele era inocente daquilo, mas devia ser culpado de algo. Todo mundo é.
Até que um dia, mandando um meme contra um político enquanto dirigia, atropelei uma criança. E fui pra cima do policial que me parou porque ele me fez perder a postagem. Com o golpe, desfaleci e acordei na cadeia. E, pior, desconectado.
Na cela da delegacia, tive uma crise de abstinência sem igual. Suava frio, sentia uma ansiedade louca, uma sensação de que o mundo estava acontecendo sem mim. Os outros presos ficaram com medo, pois eu teclava alucinadamente em um celular inexistente e gritava de satisfação a cada mensagem-fantasma enviada. Foram longas três horas.
Minha mãe chorou na frente do juiz. Disse que a culpa não era minha, mas do meu vício, do WhatsApp e jurou que eu era um bom garoto. Já o promotor não teve dó e mostrou centenas de postagens que eu tinha soltado, relatando como cada uma delas causou dor e sofrimento.
Estufei o peito na hora. Não senti remorso, mas um baita orgulho.
E pensei nas tantas outras postagens que havia feito, responsáveis por criar boatos que rodam até hoje e que ninguém nunca ficaria sabendo. Eles precisavam conhecer o verdadeiro responsável – eu e apenas eu. Interrompi meu advogado de defesa e desandei a falar de todas as minhas obras-primas e como era fácil manipular as pessoas.
Fui declarado mentalmente incapaz e passei seis meses numa clínica para desintoxicação. Percebi que estava no fundo do poço quando ofereci favores sexuais ao enfermeiro por 15 minutos lendo as listas dele.
Agora, estou limpo. WhatsApp, lista de mensagens, nunca mais pra mim.
Até ontem, quando um amigo me apresentou o Snapchat…
Isto é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.



19/12/15

Os 11 princípios do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels

Os 11 princípios do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels

Qualquer semelhança com as práticas da mídia golpista brasileira é mera coincidência...


Jornal GGN
reprodução
Conhece Joseph Goebbels, o violento ministro de propaganda de Hitler? Estes são os 11 princípios que levaram o povo alemão a tentar exterminar à humanidade:
 
1.- Princípio da simplificação e do inimigo único.
 
Simplifique não diversifique, escolha um inimigo por vez. Ignore o que os outros fazem concentre-se em um até acabar com ele.
 
2.-Princípio do contágio
 
Divulgue a capacidade de contágio que este inimigo tem.  Colocar um antes perfeito e mostrar como o presente e o futuro estão sendo contaminados por este inimigo.
 
3.-Princípio da Transposição
 
Transladar todos os males sociais a este inimigo.
 
4.-Princípio da Exageração e desfiguração
 
Exagerar as más noticias até desfigurá-las transformando um delito em mil delitos criando assim um clima de profunda insegurança e temor. “O que nos acontecerá?”
 
5.-Princípio da Vulgarização
 
Transforma tudo numa coisa torpe e de má índole. As ações do inimigo são vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir.
 
6.-Princípio da Orquestração
 
Fazer ressonar os boatos até se transformarem em notícias sendo estas replicadas pela “imprensa oficial’.
 
7.-Princípio da Renovação
 
Sempre há que bombardear com novas notícias (sobre o inimigo escolhido) para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas.
 
8.-Princípio do Verossímil
 
Discutir a informação com diversas interpretações de especialistas, mas todas em contra do inimigo escolhido. O objetivo deste debate é que o receptor, não perceba que o assunto interpretado não é verdadeiro.
 
9.-Princípio do Silêncio.
 
Ocultar toda a informação que não seja conveniente.
 
10.-Princípio da Transferência
 
Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes
 
11.-Princípio de Unanimidade
 
Busca convergência em assuntos de interesse geral  apoderando-se do sentimento  produzido por estes e colocá-los em contra do inimigo escolhido.
 
Qualquer semelhança com as práticas do PIG é pura coincidência....
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Pinçado da Carta Maior

25/10/15

Raloim, só se for com carne seca !


Manifesto do Saci 

Um espectro ronda a indústria da cultura. Como já ocorrera durante a I Guerra Mundial – quando os chamados “ povos civilizados” se matavam entre si nos campos da Europa, como lembra Monteiro Lobato em seu Inquérito, escrito em 1917 –, o espectro do Saci voltou para dar nó na crina das potências que invadem os outros países com uma “indústria cultural” predadora e orquestrada.
O Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural a essa invasão. Na figura simpática e travessa do insigne perneta, esbarram hoje, impotentes, os x-men, os pokemon, os raloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru.
É tempo, pois, do Saci expor abertamente seus objetivos, lançando um manifesto e denunciando o verdadeiro espectro: o espectro do imperialismo cultural. Para tanto, outros expoentes do imaginário cultural brasileiro – como o Boitatá, a Iara, o Curupira e o Mapinguari – reuniram-se e redigiram o presente manifesto.
A cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso país. A história de todas as culturas até hoje existentes é a história de opressores e oprimidos. Hoje, como ontem, o Saci apóia, em qualquer lugar e em qualquer tempo, qualquer iniciativa no sentido de contestar a arrogância, a prepotência e a destruição de que é portadora a indústria cultural do império.
O Saci não se reivindica como símbolo único e incontestável da cultura popular brasileira. O Saci trabalha pela união e pelo entendimento das várias iniciativas culturais que devolvam ao nosso povo a valorização de sua identidade cultural. O Saci não dissimula suas opiniões e seus objetivos e proclama, abertamente, que estes só podem ser alcançados por um amplo movimento de resistência cultural, denunciando os malefícios da indústria cultural imperialista. Que ela trema à idéia de uma resistência cultural popular. Nesta, o Saci nada tem a perder a não ser seus grilhões. E tem um mundo a ganhar.
Sacis de todo o Brasil, unamo-nos!
SOSACI



Manifesto Antropófago revisitado

Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência!


Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci.

Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush. 
O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora. 
A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.

São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora



Faça parde da SOSACI 


09/08/15

Feliz dia dos Pais, amigos leitores.

Posto aqui, um texto homenagem aos Pais, escrito por nossa colaboradora Tássia Regino.



Queridos Amigos e Amigas,

Hoje experimentei uma prova prática de que esta minha condição atual de ler menos faz a gente menos criativa e diminui o nosso repertório.
Estou dizendo isto porque ao escolher meu jeito de homenagear o Dia dos Pais, vi que estou repetindo a inspiração e um autor.
Neste caso, a inspiração é de novo a Marina, nossa neta, e a dinâmica de seus pais jovens e o autor repetido é o Antonio Prata (o atual campeão de compartilhamentos dos meus e-mails! rs rs).
Pensei em mudar, mas decidi não fazer isso. Gostei tanto dos dois textos que escolhi e a inspiração vem de alguém que me faz tão bem, que preferi compartilhar com vocês. Além disso, o segundo autor apareceu poucas vezes por aqui, fazendo que pelo menos alguma coisa neste email seja inédita! rs rs
Os textos que escolhi são duas crônicas recentes em que os autores falam da “dureza e delícia” de ser pai de bebês e de acompanhar “o desabrochar de pequenos seres humanos feitos com metade dos meus genes e metade dos genes da mulher amada”, nas palavras do Prata.
Quando li as duas pensei bastante em Pedro, o Pai da Marina. Na verdade, também pensei na mãe da Marina: sempre que olho a lida deles eu penso que ainda bem que eles decidiram ter filho jovens, porque precisa ter muita energia, como mostram os pais-escritores! rs rs
Na primeira crônica, engraçada já no título (Dormir É Para Os Fracos), o Antonio Prata traz o que ele chama “ catorze constatações a partir da paternidade”, entre elas a de que “antes de ter filhos, eu era um vagabundo que ficava reclamando, sem razão, de não ter tempo pra nada”. Segundo ele, “se hoje me dessem três meses com o tempo livre que eu tinha há dois anos, eu conseguiria aprender esperanto, escrever "Anna Karenina” e  treinar pro Ironman”
A segunda crônica, linda, é do Marcelo Rubens Paiva, que começa dizendo que “quando nasceu meu filho, alguém disse: ´É o filé-mignon da vida´”. E ao final ele conclui: “Não é apenas o filé-mignon. É o rebanho todo.”
As duas crônicas são o meu jeito de homenagear todos os pais, de todas as idades, presentes e ausentes e de dividir com vocês esta homenagem. Espero que vocês gostem, que celebrem seus pais e os seus amigos-pais e tenham uma ótima semana, se encontrando com a parte leve da vida!

 

Abraços a tod@s e parabéns aos que são Pais!


Tássia
PS: Prá quem quiser ler mais sobre o assunto, saiu um crônica legal do Joao Pereira Coutinho, Pai aos 40.

DORMIR É PARA OS FRACOS
Antonio Prata
Folha de São Paulo - 19/07/2015  02h00
Catorze constatações a partir da paternidade: uma crônica de autoajuda para os que pretendem procriar –ou talvez, mais ainda, para os que não pretendem.
1) Antes de ter filhos, eu era um vagabundo que ficava reclamando, sem razão, de não ter tempo pra nada.
2) Depois de ter filhos, eu sou um pobre diabo que fica reclamando, com razão, de não ter tempo pra nada. (Se hoje me dessem três meses com o tempo livre que eu tinha há dois anos, eu conseguiria aprender esperanto, escrever "Anna Karenina" e treinar pro Ironman).
3) Se eu tivesse um minuto pra pensar a respeito da paternidade, provavelmente me daria conta de que estou vivendo um dos momentos mais gloriosos da minha breve passagem sobre a terra: estou acompanhando o desabrochar de pequenos seres humanos feitos com metade dos meus genes e metade dos genes da mulher amada.
4) Se eu não tenho um minuto pra pensar a respeito da paternidade, é porque estou exercendo a paternidade, o que significa, entre outras coisas: tentar evitar que um desses pequenos seres humanos ponha na boca a mão que acabou de meter na fralda suja de cocô; tentar convencer o outro pequeno ser humano de que não dá para vermos o caranguejo agora, pois o caranguejo mora em Ubatuba, nós moramos em São Paulo –e são duas e trinta e sete da manhã. Tais atividades, convenhamos, deixam pouco espaço para a contemplação.
5) Felizmente, devido a uma simpática trapaça cognitiva, pregada pela seleção natural, o cocô dos nossos filhos nos parece muitíssimo menos repulsivo do que os cocôs do resto da humanidade. (Infelizmente, não a ponto de nos esquecermos que aquilo na fralda, nas costas, nas pernas ou na mão do pequeno ser humano continua sendo cocô.)
6) Depois de ter filhos, os minutos destinados ao próprio cocô se transformam num raro e beatífico momento de paz, pelo qual os jovens pais anseiam como um monge por sua meditação.
7) (Não é incomum pais neófitos simularem dores de barriga para poderem se trancar no banheiro várias vezes ao dia e: ler rótulo de creme hidratante, dar "like" na foto do gato da prima, fitar os azulejos num torpor quase místico).
8) Ninando um bebê, me descubro capaz de executar funções com partes do meu corpo que, até ter filhos, julgava completamente ineptas. Consigo abrir e fechar uma maçaneta com o cotovelo –sem fazer barulho. Consigo regular o "dimmer" com a bunda. Consigo abrir e fechar o mosquiteiro com o nariz. Coço o queixo na estante de livros, as costas no armário embutido, a testa no prato da samambaia. Se tiver uma única mão livre, posso fazer o solo de bateria do John Bonham em "Moby Dick", de trás pra frente –só não faço porque iria acordar o bebê.
9) Antes de ter filhos, eu achava o fim da picada pais que trabalhavam com: babá, biscoito recheado, televisão no carro.
10) Hoje, procuro uma folguista pro fim de semana (pago metade do meu salário e dou meu carro como bonificação), negócio "Só mais uma, já é o terceiro pacote!" e imploro "Não chora! Olha o filme do Senhor Batata! A Menina Moleca! A Galinha Pintadinha!".
11) Galinha Pintadinha é a imagem da Besta.
12) Galinha Pintadinha é uma bênção divina.
13) Dormir é para os fracos.
14) Eu sou fraco. 


 

A VIDA
Marcelo Rubens Paiva
Quando nasceu meu filho, alguém disse: “É o filé-mignon da vida”. Mas ela fica cada dia mais caótica. Dizem que só “melhora”. O que será “melhorar”?
Talvez nos acostumemos. Tomara. Minha mãe teve cinco! Passei a perdoá-la no que classifico como baixa participação na aflição afetiva dos filhos.
Amanhece. Passo a viver com meu duplo: o eu e um outro, o eu e o papai. Ele não acordou. Nem dou a descarga. Não escovo os dentes. Ando pela casa lentamente em silêncio. Dizem que audição é o sentido mais aprimorado de um bebê. Me acostumei a andar como um gato, sem esbarrar em nada. Telefones no mudo. Computadores com alto-falantes em 0%.
Pressa. É a chance de tomarmos o café da manhã sem precisarmos reparti-lo com o pequeno e curioso sujeitinho que vive conosco há um ano e meio e, se dermos sorte, lermos o jornal de cabo a rabo. Artigos longos ficam para “quem sabe…”
Não demora. O pequeno cidadão sente o deslocamento de ar da casa. Acorda. Não posso reclamar. O filho que dorme antes dos pais e acorda depois começa a falar sozinho no berço, a cantar. E torço para ele continuar se entretendo. Dizem que melhora a concentração.
Então escuto: “Pá?” Depois vem a primeira palavra que aprendeu, por culpa minha, que sussurrava direto no seu ouvido, torcendo para ser a primeira palavra a aprender (e não deu outra): “Papá?” Interessante como a forma de me chamar é uma pergunta: “Pá pá?”. Por que quer saber se estou pela redondeza. E se sofisticou: “Pai?” E virou: “Papaiiii?”
Eu deveria ter ensinado: “Mamã”. Calma, um segundo. Corro pela casa. Xícaras, pratos, talheres, copos, telefones, mouses e teclados nos fundos das mesas. Celular fora do campo de visão. Controles remotos na gaveta. Portas da cozinha e banheiros fechadas. Eu não sabia que bebês curtiam molhar a mão em privadas. Todas elas agora têm lacre. Todas as gavetas têm lacre. Checar se todas estão lacradas.
“Papaiii!?” Já vai. Checar protetores nas tomadas, carregadores, espuma nas portas. Guardar pilhas e moedas. A paciência dele se esgota. Então tá… Abro a porta: bom-dia.
O quarto escurinho tem aquele cheiro de leite com pomada e sabonete neutro. Ele está em pé no berço e fica felicíssimo. Me mostra seu brinquedo, um boneco Piu-Piu gigante, quem tenho que cumprimentar, com quem ele dorme, que na verdade foi da minha mulher.
Abro a cortina blecaute. A luz o cega. Sinto aquele bafo matinal. Como uma pequena criatura pode ter já um bafo tão potente? Tem remela, cabelos amassados, olhos inchados. Acorda como qualquer adulto. A diferença é que acorda sempre num colossal bom-humor, como se a vida fosse a melhor coisa do mundo, uma eterna brincadeira, a descoberta constante, que ele adora.
Acender, apagar a luz e ligar um ventilador dão a sensação de êxtase pelo poder e controle de forças invisíveis. Mamadeira, ele aponta. Comer é crucial. Ele anda pela casa sugando. Estou lendo jornal. Ele aparece ao meu lado, arranca-o numa velocidade incrível e volta à mamadeira. Peço meu jornal de volta. É uma negociação educada. Ele devolve e some.
Estar quieto demais não é salvação, é problema. Alguém vai logo checar. O que ele está aprontando? Estar quieto é aprontar. Está bebendo shampoo, desenrolando papel higiênico, tirando livros da estante ou esvaziando a lixeira. “Não pode!” Chora.  
Estou no teclado, ele reaparece, aperta o enter, some meu texto da tela. Ele volta a mamar e some. Toca o telefone. Atendo. Ele reaparecer, puxa o telefone, que cai no chão. “Não pode!” Caiu a linha.
Ele cai no chão. Bateu a cabeça. Chora. É uma média de quatro tombos por dia. Fala pela casa: “Bru bur u”. “Tá pê-pê-pê”. Faz variações da palavra “meme”. Então vem: “Papai te? Papa i Uh, dei ber ti… Umaba tuiu”
“Sei”, repondo, enquanto trabalho. “Ti tá… ti tá… ti tá…”, começa a série de repetições. Respondo: “Jura?” “Sério?” “Nossa…” Gargalha. E passa a empurrar coisas pela casa. Me bloqueia com móveis: uma barricada. Tento tomar um café. Ninguém se lembra onde está a bandeja com as cápsulas, várias vezes derrubada por ele.
Meu celular, bobeei, sumiu. Estava carregando. Ele descobre a minha carteira, desmonta e espalha os cartões de crédito pela casa. Como ele descobriu que aquilo é tão importante para mim? Claro. Viu papaiiii sacá-la várias vezes e comprar coisas com aqueles cartões. Se é importante para o papaiii, é para ele.
E bacana é brincar com as coisas importantes do papai. Sumiu com meu mouse. Bobeei. Fico sem trabalhar até encontra-lo. Outro dia, o encontraram na cesta de roupa suja. Com tudo que é importante para o papai, ele some.
Vai para a escola, e sinto saudades. Esbarro em brinquedos que começam a tocar sozinhos. Tem um que faz “uiii!”. Tomo um baita susto e vejo um troço amarelo piscando no formato de um mini andador que ri de mim. Sem querer atropelo um ursinho que diz “barriga”, “você é meu amigo”, e pede “me dá um abraço”. Na pia, tem uma zebra, uma girava e um leão, todos de plástico do mesmo tamanho e vesgos.
O moleque volta animado: “Êeeeeeeee”. E cai no chão. Bate a cabeça. Chora. Vem a jornada de caça aos gatos. O mais velho, paciente, aceita a aproximação. O mais novo, adotado, cuja infância não sabemos por qual inferno passou, não quer saber.
Momento do cadê, “achô”, cadê, “achô”, que dura uns 20 minutos. Pelo corredor, costuma correr e gritar: “Êeeeeeeee”. Às vezes vou junto gritando o “Ê”. Quando vão banhá-lo, ele vem peladinho se mostrar. Faz xixi no chão. Só eu e ele achamos graça. Ele dança sobre o xixi. Só eu e ele rimos. Mostramos o umbigo um para o outro, o barrigão, batemos no barrigão. Ele escorrega no xixi, cai e chora.
Anoitece. Tentamos ver os telejornais. Ele desliga a TV, ligamos, desliga, ligamos, ele a tira da tomada, desistimos. Há meses não vemos telejornais.
Começa a coçar os olhinhos. Vamos nanar? Ele faz não com a cabeça. Levo para o berço. Fico ao seu lado no escuro. Ele sussurra: “Pá-pá… pá-pá…” Deita, fala um pouquinho, canta baixinho e sussurra: “Pá-pá…” Amanhã tem mais. Não é apenas o filé-mignon. É o rebanho todo.
Passo à noite com saudades.
Na manhã seguinte, fico esperando ele acordar, para recomeçarmos a viver. Para acha-la uma grande brincadeira.